Fake news: a verdade da mentira

Só de pensar que vou começar a falar de algo como “mentira” já me fez começar a suar da ponta dos dedos, então quando me lembro que a receita também refere “notícias” e que o resultado da ementa vão ser “notícias falsas” só me apetece largar o teclado e deixar o ciber-culturismo, mas depois recordo-me porque é que comecei e que se quero chegar ao fim da corrida com o troféu tenho que superar tudo e todos.

Calma, “superar tudo e todos” não vos faz lembrar ninguém, num passado recente? Donald J. Trump, conhecem? Fácil, eu sei. Aquele que conseguiu o inesperado, que fez história e que, certamente, a continuará a fazer, possivelmente não pelos melhores motivos (não será, Kim Jong-un?).

Mas se perguntar por Jimmy Rustling ou Paul Horner dificilmente saberão, ou não? Trump saberá de certeza, não fossem eles os maiores aliados à sua campanha, mesmo que indiretamente e mesmo que não tivessem esse propósito ou intenção, acabando também muito responsáveis pela sua popularidade, através de, adivinhem, fake news! Fácil, mais uma vez. Tão fácil que Horner chega a afirmar que “acha que Donald Trump está na Casa Branca por causa dele“.

Rebobinando até ao ponto de partida, é importante definir as tais fake news, “termo que ganhou nome” e virou moda depois das ultimas eleições dos Estados Unidos da América.

(…) o termo diz respeito a sites e blogs que publicam, intencionalmente, notícias falsas, imprecisas ou simplesmente manipuladas, com a intenção de ajudar ou combater algum alvo, normalmente político. Eles também copiam notícias verdadeiras de outros veículos, mas mudam as manchetes, alterando o sentido ou colocando algo sensacionalista para atrair leitores.

Ora, é esta definição que Luciano Pires nos dá aqui, num artigo onde também aborda uma questão que é mais do que pertinente e que está sempre aliada às fake news: as redes sociais — se no meu artigo anterior as intitulei de “prisão perpétua”, neste contexto “arma mortífera” seria a descrição possível. São as redes sociais que permitem a multiplicação astronómica de partilhas e visualizações de tudo e mais alguma coisa, então quando aparece uma notícia com o título de “Papa Francisco choca o mundo ao apoiar Donald Trump para Presidente, diz comunicado”  é normal que esta alcance 961 mil interações no Facebook e se torne viral. O problema é que era falsa (caso contrário ainda estava disponível, mas foi removida entretanto). E como esta muitas mais.

Começaram por ser disponibilizados em sites que se fazem passar pelas verdadeiras CNN, NBC e ABC, a ponto de lhes replicarem o nome. Para aumentar o efeito pretendido, socorrem-se de uma subtil alteração nos endereços URL, impercetível aos mais distraídos por exemplo, para se disfarçar de ABC News (abcnews.com), a solução escolhida foi abcnews.com.co.

A viagem ao mundo do crescente e perigoso fenómeno das notícias falsas que a Visão nos oferece leva-nos à descoberta deste tema e mostra-nos como é que uma notícia falsa consegue alcançar proporções tão elevadas, e uma das maneiras pelo qual isso acontece é relatado na citação acima, mostrando um dos truques mais básicos relativo ao nome e endereço dos sites, que tentam sempre ser o mais próximo do original, de forma a ser quase imperceptível a diferença, levando praticamente todos os utilizadores a acreditarem na fonte. E isso só nos leva a crer que a maior parte dos surfistas que vagueiam online são pessoas desinformadas, desatentas e fracas de conhecimento (desculpem-me a frontalidade os mais sensíveis).

O livre acesso à internet a qualquer ser pensante faz com que seja fácil obter sucesso com a mentira, e o problema é mesmo esse: a má notícia tende a afastar a boa, como é referido neste artigo. Isto é tão real ao ponto “dos utilizadores do Facebook “interagirem” mais com notícias falsas dos dois candidatos finais à eleição presidencial nos EUA do que com as notícias de órgãos de comunicação social”, referido também no mesmo artigo.

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Isto assusta, pelo menos assusta-me a mim. Mas sabem porque é que isto acontece, porque realmente o população que frequenta as redes sociais é, ou parece ser, muitas vezes, menos instruída que um primata (sem ofensa!) e partilham notícias sem ler, músicas sem as ouvir, dão like ao que se calhar nem gostam, e por aí adiante. Confirma, e muito bem, Ines Amaral no mesmo artigo da Visão que “é típico as pessoas não lerem as notícias” (cheers, prof!).

Então não partilhem, pode ser? O título não é a notícia, podem perceber?
Lembrem-se sempre que quem faz uma noticia dessas quer dinheiro. Money, cash, pernum, kumbu, guita, etc, acho que já perceberam. A corrida pelos clicks que valem dinheiro é tanta que se inventa tudo em prol do lucro. O exemplo mais falado e notório foi o da Macedónia, que a BBC intitulou como “a cidade que está a ficar rica com fake news”, onde há casos de jovens que ganharam milhares com notícias falsas e as começaram a apelidar de “ouro digital”. O escasso poder económico do país aliado faz com que a descoberta destas formas fáceis de ganhar dinheiro alie dezenas de jovens ao (mau) costume da mentira em prol do dinheiro. “Some students admit to working most of the evening on fake news before going to school”, podemos ler no mesmo artigo, que só vai reforçar a ideia do conforto que os jovens têm com este tipo de iniciativas e a descontração com que o admitem. Afinal, não é ilegal. Só acredita quem quer.

Reparar também que os órgãos de comunicação social (e agora falo dos portugueses) são também um bichinho roedor e mal-cheiroso que caçam de uma maneira tão suja os tais clicks e partilhas, originando aquilo a que se denomina clickbait, quando alteram e criam títulos enganosos para uma noticia que até é verdadeira, só para chamar à atenção e fazer o típico leitor descuidado clicar e ler. Felizmente, e deixo aqui a dica para os tais que partilham tudo e mais alguma coisa, os truques da imprensa portuguesa estão quase todos expostos nessa página com esse mesmo nome, a quem faço a devida vénia, por desmascarar cada vez mais essas atitudes.

Resta dizer que o mundo gira à volta de muita mentira, muita ilusão, muito malabarismo, por isso não se assustem quando somos comparados a um circo. E é o Snoop Dogg que acaba censurado quando faz uma “fake kill” ao Donald Trump num videoclipe. Irónico. É este o nosso mundo.

Can we make the world great again? Se calhar compensava mais do que apenas a America.

P.S.: Aos 99,9% de utilizadores de internet desenformados e consumidores de fake news, percam 5 minutos do vosso tempo e leiam as dicas que a maior rede de partilha das mesmas disponibilizou para saberem distiguir a verdade da mentira, aqui.

Agradecer também ao Google, mais uma vez, pela enorme capacidade em encontrar informação e permitir que encontrasse todos os artigos, citados em hiperligação ao longo do texto, para que fosse possível escrever esta obra de arte. São eles a bibliografia, a qual devem visitar e ler na integra, para mergulharem ainda mais fundo neste lodo.

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